terça-feira, 23 de março de 2010

A culpada é a televisão?

Um documentário exibido pela TV francesa dias atrás mostrou até onde vai o poder da televisão sobre as pessoas. Foi num jogo de perguntas e respostas, onde 80 voluntários foram instruídos a sabatinar um participante sentado numa cadeira elétrica. A cada resposta errada, o homem levava um choque disparado pelos voluntários. O equipamento elétrico, no entanto, era falso e o homem na cadeira era um ator contratado. Os voluntários e a platéia, convictos de que tudo era verdade, ficaram assustados com os gritos do homem que levava choques pelas respostas erradas, e que aumentavam na voltagem a cada rodada das perguntas. Mesmo assim, seguiram no jogo da morte até a descarga fatal de 460 volts que o matou diante de todos. Claro, de forma simulada. O documentário revelou que apenas 16 dos 80 participantes não quiseram “eletrocutar” o homem. A intenção do falso show de televisão era testar o poder da televisão. “A televisão tem poder que pode nos transformar em carrascos potenciais”, concluiu o produtor do programa.

Colocar a culpa na televisão é fazer igual ao Chaves, que disse para o Quico: "Não fui eu. Foi a bola que pegou a bola e me bateu com a bola!". É o coração humano que tem poder sobre as mentes humanas. Os meios de comunicação são meros instrumentos. As novelas, por exemplo, se fossem sadias e instrutivas, poderiam acabar com muitos problemas na família, na sociedade. Mas qual a mensagem que passam? E até onde os milhões de telespectadores conseguem separar a realidade da dramaturgia? E neste Big-Brother, se no lugar do telefone, os da poltrona em casa tivessem um botão para eletrocutar o desafeto? E agora, no retorno do espetáculo “Isabella Nardoni”? O que aconteceria com o casal em julgamento se os pensamentos do povo fossem armas engatilhadas?

No amanhecer daquela sexta-feira, há dois mil anos atrás, não tinha televisão nem cadeira elétrica, mas os componentes do jogo da morte estavam acionados. Porque “fizeram os seus planos para conseguir que Jesus fosse morto” narra o evangelista Mateus (27.1). Por isto a gritaria do povo: - “Crucifica-o, crucifica-o”. Pilatos lavou as mãos e a turba não enxergava mais nada: - “Que o castigo por esta morte caia sobre nós e sobre os nossos filhos”. No meio do povo tinha gente boa, honesta, de igreja, de família. Mas a “televisão” do Gólgota prendeu a atenção e as mentes deles. E pior que não era encenação, mas a realidade da Morte e do Inferno. Por incrível que pareça, era também o espetáculo da realidade da Vida e do Céu.

Não é por nada a recomendação: “Encham a mente de vocês com tudo o que é bom e merece elogios, isto é, tudo o que é verdadeiro, digno, correto, puro, agradável e decente” (Filipenses 4.8). Caso contrário, se não nos cuidarmos, qualquer dia poderemos nos surpreender com nós mesmos, apertando um botão e eletrocutando alguém. E a culpada não será a televisão...

Marcos Schmidt
Pastor luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS

sábado, 6 de março de 2010

Preparados para as tragédias

Os chilenos sabiam que este terremoto iria chegar a qualquer hora. Eles moram bem em cima de uma rachadura na Terra – uma placa tectônica – e por isto estavam preparados, tanto que o número de vítimas é pequeno em relação ao tamanho da destruição. Diferente no Haiti, onde a própria situação de caos social em que já se encontrava o país caribenho, junto com o descaso sobre possíveis terremotos, colaborou para os duzentos mil mortos.

No Brasil não precisamos nos preocupar com terremotos. Ao menos é o que dizem. Mas existe o perigo para outras catástrofes naturais. Enchentes, secas, tornados, e até tsunamis – estas terríveis ondas gigantes. Lembro-me do alerta divulgado tempos atrás sobre uma possível onda gigante provocada pelo vulcão Cumbre Vieja nas ilhas Canárias. Se o vulcão entrar em atividade, uma enorme montanha pode deslizar no mar, formando uma onda jamais vista que atingirá três continentes. Os cientistas responsáveis pela notícia recomendam acompanhar o vulcão e emitir sinais de alerta, para que as pessoas possam ser retiradas das áreas de risco e reduzir o número de vítimas. No Brasil a região norte seria atingida por este tsunami.

“Isto nunca vai acontecer”. Esta é uma frase perigosa. Precisamos, ao contrário, estar em prontidão para situações de risco. Pode ser que nunca aconteçam, mas se chegarem, temos uma “defesa civil”, que fará a diferença. Pois, se nesta vida terrena isto é importante, na espiritual é imprescindível. E aí busco um texto oportuno na Bíblia quando o assunto é o terremoto no Chile. Encontra-se no livro de Hebreus: “Naquele tempo a voz de Deus fez com que a terra estremecesse, mas agora ele prometeu isto: ‘Mais uma vez farei com que trema não somente a terra, mas também o céu’. As palavras ‘mais uma vez’ mostram bem que as coisas criadas serão abaladas e mudadas, para que as que não podem ser abaladas continuem como estão. Por isso sejamos agradecidos, pois já recebemos um Reino que não pode ser abalado” (12.26-28).

Pode parecer cruel, mas os terremotos nos dão este recado: o chão em que pisamos um dia vai ruir completa e definitivamente para dar lugar a uma terra onde não tem “terremotos”. Estamos preparados? Creio que o terremoto da Sexta-Feira Santa aponta para o plano de emergência. Narram os Evangelhos que a terra tremeu e as rochas se partiram no momento quando o Filho de Deus morreu no Calvário. Este abalo provocou um resultado parecido com o daquele que livrou Paulo e Silas da prisão. Conta o livro de Atos que “o chão tremeu tanto, que abalou os alicerces da cadeia” (16.26). Foi assim na cruz. Os pilares que sustentavam a prisão do pecado ruíram e Cristo resgatou a todos dos escombros espirituais.

Sem dúvida o terremoto no Chile aponta para este recado do Salvador: “O que eu lhes digo, digo a todos: fiquem vigiando” (Marcos 13.37).

Marcos Schmidt
Pastor luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sonho de ficar rico

Um matemático disse o seguinte sobre a Mega Sena: “Pegue uma moeda e escolha cara ou coroa. Depois, jogue-a para o alto 25 vezes. A chance de ela cair as 25 vezes do mesmo lado é semelhante à de acertar neste jogo de loteria”. Cálculos precisos afirmam que a probabilidade de alguém acertar a Mega Sena é de um em 50 milhões. É mais fácil, portanto, encontrar uma panela com moedas de ouro cavando buracos nos fundos de casa. Evidentemente que sempre tem o cara de sorte, aquele um que ganha, e que desta vez foi em Novo Hamburgo. Só que o “bolão deu bolo”, deu azar.

Não acredito em sorte nem em azar. E penso que este caso da aposta vencedora que não foi registrada pela lotérica, pode ajudar na reflexão sobre os efeitos da jogatina na vida de uma pessoa. Porque a frustração destes apostadores que viveram a riqueza por algumas horas – sentimento que deve estragar o humor deles por um bom tempo – serve de alerta para os milhões de apostadores que sonham, sonham e sonham, e nunca chegam lá. Alguém pode dizer que sonhar é preciso. Mas qual é o sentido da vida quando no final, tudo ficou apenas no sonho? Quando a realidade dos detalhes da vida, do dia a dia, foi desprezada e anulada? Pois este é o “azar” dos jogos de azar: eles matam as coisas boas do presente.

Seguidamente me perguntam: o que a igreja pensa sobre isto? Bem, depende da igreja, porque tem “casas de Deus” que são concorrentes com as casas lotéricas. Na verdade, dinheiro é assunto sério na Bíblia, pois foram trinta moedas de prata que levaram o Filho de Deus até à cruz. Por isto a recomendação: “Se temos comida e bebida, fiquemos contentes com isso. Porém, os que querem ficar ricos caem em pecado ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição” (1 Timóteo 6.8,9). Querer ficar rico não é nenhum pecado. O problema é o “como”, o “por que” e o “para que”.

E quando a propaganda do consumismo não nos permite ficar contentes com a comida e a bebida que temos, então não é nenhuma surpresa o crescimento da cobiça, dos roubos, da corrupção, da desonestidade – de tudo isto que vem acontecendo na sociedade, na política, nos negócios. E se a Bíblia diz que “sem dinheiro não se pode ter nem uma coisa nem outra”, por outro lado sugere: “Quem ama o dinheiro nunca ficará satisfeito; quem tem a ambição de ficar rico nunca terá o que quer. Isto também é ilusão” (Eclesiastes 10.19 e 5.10). Foi por isto que Jesus, ao falar das riquezas, recomendou: “Ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer, e ele lhes dará todas essas coisas” (Mateus 6.33). Ao menos, esta é uma aposta que está registrada e que todos ganham pela fé (não pela fezinha). É o que promete o texto cristão: “Se ele nos deu o seu Filho, será que não nos dará também todas as coisas?” (Romanos 8.32).

Marcos Schmidt
Pastor luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS