segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Das profundezas da camada Pré-sal

Nas comemorações do Dia da Independência do ano passado o governo anunciava a descoberta de petróleo na profunda camada do Pré-sal. Passado um ano, o assunto volta a ser foco dos noticiários.

O presidente Lula proclama uma verdade ao afirmar que “o Pré-sal é uma dádiva de Deus!” No entanto também é verdade que muitas camadas de corrupção sufocam o nosso ânimo e o nosso grito de alegria diante de tão rica descoberta.

Sabemos perfeitamente que os gananciosos, para meter a mão nessa riqueza situada a 7 mil metros de profundidade, não hesitariam em mandar muitos pobres coitados para 7 palmos abaixo do chão. Por isso a esperança do povo continua soterrada nas profundezas!

É preciso lembrar que o amor às riquezas é a raiz de todos o males (1 Tm 6.10). Por amor ao dinheiro muitos esquecem do “pão nosso” e priorizam o “pão meu”. Assim, castelos e mansões são construídos aos ricos e pequenas camadas de terra passam a cobrir indigentes que morrem de fome.

É preciso relembrar que nem mesmo o melhor dos combustíveis fará um povo sem “patriotismo” ir para frente. Aqui não estou falando do patriotismo que só aparece nas competições esportivas, mas naquele que se manifesta no dia-a-dia da população. Há muitas coisas revoltantes acontecendo. Parece que passamos a “depender” de falcatruas, de jeitinhos. Estamos nos acostumando com isso, tanto que os escândalos do Senado são apenas cenas de um show onde muitas vezes somos mais atores do que espectadores. Por isso, é preciso que um brado de “independência” aconteça! Começando por nós, começando pelo povo; pois os escândalos no Senado começam no nosso quintal. É preciso rever nossos votos ao escolhermos pessoas aos cargos públicos, mas também é necessário elegermos atos honestos na administração de nossas vidas pessoais. Pois, o fato é que não há petróleo no mundo capaz de acabar com a miséria enquanto estivermos sufocados por camadas e camadas de falcatruas.

Somente o amor de Deus, revelado em Jesus, pode ser um combustível forte e caro, para influenciar e motivar cidadãos a lutar e trabalhar por nosso país.

No dia 7 de setembro lembramos o grito pela independência. Mas que em nossa memória permaneça constantemente o grito dado na cruz, onde Jesus pagou pela nossa culpa, não com ouro, prata ou petróleo, mas com seu sangue. Assim Ele nos resgatou das profundezas do Inferno, para que vivamos na Luz da honestidade em toda e qualquer camada, como cidadãos da Pátria Celeste.

Que assim seja! Das profundezas do Pré-sal, aos raios fúlgidos do sol da liberdade!

Pastor Ismar Lambrecht Pinz
Congregação Luterana Cristo Redentor
Três Vendas, Pelotas - RS

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Dia do Saio

A última denúncia contra Sarney é a aquisição de um castelo em Portugal adquirido por ele quando presidente do Brasil em 1990, pago em dinheiro provindo de um paraíso fiscal e não declarado à Receita Federal. Se a notícia é verdadeira, já passou a hora do chefe do Senado instituir o “dia do saio”: “Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação, digam ao povo que saio". O Dia do Fico, dez meses antes do Grito do Ipiranga, é um brado que simboliza a nossa libertação de Portugal. Mas o grito do Senado simbolizaria a independência de todos os castelos portugueses sonegados, ou seja, corrupção, falcatruas, injustiça social, desvio de recursos, impunidade etc.

Pensando bem, a vida de cada um pode ser descrita em decisões de ficar e de sair. E o grito, a coragem de decidir, depende do bom juízo. Foi este discernimento que fez o Príncipe Regente dizer: “Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação, digam ao povo que fico". Uma escolha que deveria nortear todas as nossas decisões. Ao menos é um princípio cristão: “Para o bem de todos, Deus dá a cada um alguma prova da presença do Espírito Santo” (1 Coríntios 12.7). O texto refere-se aos diversos dons espirituais – todos visando um fim proveitoso no serviço ao semelhante, que no final é um serviço a Deus. O apóstolo, no entanto, revela a chave para que os “recursos” não sejam desviados: “Porém eu vou mostrar a vocês o caminho que é o melhor de todos” (1 Coríntios 12.31). E logo adiante ele aponta a direção: “Se não tivesse amor isso não me adiantaria nada”.

Não dá para misturar alhos com bugalhos nem religião com política. Mas se no serviço público igualmente não existir o amor, o desejo de servir, então não adianta nada. Um despreendimento que exige decisão de permancer no lado da honestidade e de sair do meio da malandragem. O que não é fácil. No caso de Dom Pedro I, o custo era a própria vida: “Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro promover a liberdade do Brasil. Independência ou morte!". Se nossos políticos não têm esta disposição, então que sigam o caminho pelo qual o presidente do Senado ainda não tomou coragem de trilhar.
Mas como disse, este ficar e sair são atitudes indispensáveis a todos, príncipes e plebeus. Um grito que quer ecoar dentro de cada um contra o jeitinho da mentira e da desonestidade. Decisão que o Livro dos livros já sublinhou: “Por isto não mintam mais. Que cada um diga a verdade (...) Quem roubava que não roube mais, porém comece a trabalhar a fim de viver honestamente e poder a ajudar os pobres” (Efésios 4.25,28).

Marcos Schmidt
Pastor luterano
marsch@terra.com.br
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Mundo hospício

Qualquer coisa pode virar doença compulsiva. Por exemplo, este famoso médico de fertilização acusado de estupro. Abusou a primeira vez, depois a segunda e nunca mais parou com suas perversões. Algo parecido na política onde a tara é a mentira e os violentados são o povo. Mentem uma vez, depois outra e mais outra, e no final vira obsessão. Este tipo de doença a gente vê na política, nas profissões, na religião. E pensando bem, ninguém escapa, porque de louco todos têm um pouco. São as fraquezas de cada um que Freud não explica. Na verdade, a constante luta que qualquer ser humano enfrenta é manter este maníaco bem acorrentando dentro de si. Uma batalha cada vez mais difícil numa sociedade onde “tudo está liberado” e os valores morais viraram chacota.

E se agora estamos tão preocupados com bactérias, vírus e outros bichinhos que andam por aí nas maçanetas, carrinhos de supermercados, nos recintos fechados, é preciso se dar conta que existe coisa mais letal e que álcool gel não resolve. Aliás, se a recomendação é lavar bem as mãos, o costume é dos tempos bíblicos e ajudou os judeus contra doenças da época. Só que virou obsessão compulsiva religiosa, e por isto duramente criticada por Jesus. Escreve o evangelista que os fariseus e os mestres da Lei ficaram de cabelo em pé quando viram os discípulos do Mestre comer com mãos impuras. O Salvador não deixou por menos: “Hipócritas (...) Tudo o que vem de fora e entra numa pessoa não faz com que ela fique impura, mas o que sai de dentro (...) Porque é de dentro, isto é, do coração que vêm os maus pensamentos, a imoralidade sexual, os roubos, os crimes de morte, os adultérios, a avareza, as maldades, as mentiras, as imoralidades, a inveja, a calúnia, o orgulho, e o falar e agir sem pensar nas conseqüências” (Marcos 7.1-21).

Ao perceber que muita gente não tinha controle de seus atos e vivia totalmente entregue aos vícios (Efésios 4.19), o apóstolo recomendou um remédio eficaz: “É preciso que o coração e a mente de vocês sejam completamente renovados. Vistam-se com a nova natureza criada por Deus” (Efésios 4.23,24). Paulo fala de experiência própria ao confessar: “Eu era tão fanático que persegui a igreja” (Filipenses 3.6). Ele havia transformado a religião numa obsessão e por isto precisou jogar tudo fora para “poder ganhar a Cristo” (Filipenses 3.8) e ter uma mente sadia.

Neste mundo hospício onde é fácil ficar louco, vale a recomendação: “Encham a mente de vocês com tudo o que é bom e merece elogios, isto é, tudo o que é verdadeiro, digno, correto, puro, agradável e decente” (Filipenses 4.8).

Marcos Schmidt
pastor luterano
marsch@terra.com.br
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS