sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Tetzel está vivo!



A propósito dos 492 anos da reforma protestante, ocorrida em 31 de outubro de 1517, vale reflexão atualizada acerca daquele fato à luz do que ocorre hoje com as igrejas cristãs. O que Lutero enfrentou, considerada a contumaz obstinação do papa Leão X, foi sutil em vista do que por aí se faz com a mensagem de Cristo em razão de variados interesses.


A era das trevas agonizava, facilitando a exposição de confuso universo de problemas, às vezes tão políticos quanto religiosos, todos concorrentes para a ruptura definitiva da cômoda integridade católico-romana.

Bastou que viesse à tona o monstruoso déficit financeiro da obra da Basílica de São Pedro para que o papa Leão X decidisse fazer o que hoje é corriqueiro na grande maioria das denominações religiosas, sobretudo evangélicas, diante dos seus inomináveis custos.

Sem se advertir a respeito de erro teológico, político ou ético, Leão pôs à venda indulgências, títulos reversíveis em perdão, de excelente imagem e úteis aos que quisessem quitar “pinduras” com o Eterno. E as distribuiu no mercado europeu a troco de dinheiro, mas sem antes preparar bons vendedores.

Coube ao monge Johann Tetzel espalhar suas bancas pela Alemanha. Ele garantia que o benefício espiritual da compra delas seria instantâneo. Tão logo tilintassem moedas no fundo da bolsa, sofridas almas deixariam o Purgatório, lugar a meio caminho entre céu e inferno, fonte de água e fôlego.

Tudo ia de vento em popa, até que Lutero, monge formado em Teologia, Direito e Filosofia e professor da Universidade de Wittenberg, resolveu chutar o balde e botar areia nos negócios do papa. Redigiu 95 teses, em que condenava o comportamento da igreja e resgatava a verdadeira ética cristã, que se baseia unicamente na graça e na fé em Cristo.

Acendeu-se o estopim. A revolução protestante explodiu em vários recantos da Europa. Dela surgiram a Igreja Luterana, as demais denominações evangélicas históricas (Batista, Anglicana, Metodista, Presbiteriana) e centenas daí derivadas, pentecostais ou neopentecostais, seitas ou não, num turbilhão confuso de dogmas, de fé e de ritos que, com certeza, nem sempre estão de acordo com o que é teologicamente correto.

A liberdade religiosa que se seguiu à reforma, estimulada pelo poder temporal que se desvencilhava de Roma, deu origem à descontrolada sucessão de minirreformas baseadas em interpretações teológicas inobjetivas e que pariram o atual mosaico evangélico, triste labirinto sem saída.

Impressões históricas à parte, uma coisa é lamentável. O modelo Tetzel, que vendia títulos reversíveis em perdão, está mais vivo que nunca. Em que situações?

a) quando se exige que o ser humano promova esforços e obras e pague pela misericórdia redentora de Cristo, obtida na cruz em sacrifício, gratuitamente para todos, sem distinção;

b) no materialismo desmesurado, fortemente presente na maioria das igrejas tidas evangélicas, que falam mais em dinheiro do que em Deus, do seu amor, sua bondade, sua graça e sua misericórdia;

c) nas enganosas promessas de prosperidade, tidas às vezes imediatas, ou nas facilidades financeiras ou físicas, em resposta a ofertas rechonchudas;

d) na "magia simpática" que transita em muitas denominações evangélicas: Um sabonete, uma cruz, um lenço, um óleo ungido ou coisa qualquer que pode ser suficiente para manipular o sobrenatural;

e) no condenável silêncio das igrejas históricas que erram porque se omitem e não se pronunciam contra as heresias decorrentes do modelo Tetzel;

f) na vontade desmesurada de algumas igrejas cuja vontade seria a de tomar e controlar o poder secular. O Estado é laico e não há como “convertê-lo”, pondo-a serviço da religião.

Pena que hoje, como no tempo de Lutero, milhares a mais estejam pagando caro pelo excesso dessa heresia que, com certeza, não os contemplará jamais em seu gesto financeiro com um recibo assinado pelo próprio Jesus Cristo.

Orlando Eller


Jornalista

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A homossexualidade e a igreja


Semana passada saiu nos jornais a notícia: “Igreja Luterana da Suécia aprova casamento gay”. Em agosto a Igreja Evangélica Luterana dos Estados Unidos (ELCA) já tinha ido mais longe. Decidiu que homossexuais ativos podem ser sacerdotes desde que "vivam uma relação homossexual duradoura e monógama". No entanto, neste mesmo mês, na conferência do Conselho Luterano Internacional (ILC), 32 igrejas luteranas do mundo (incluindo a Igreja Evangélica Luterana do Brasil à qual faço parte) aproveitaram o encontro para emitir uma declaração. Que a união permanente de um homem e de uma mulher é o lugar onde Deus abençoa a sexualidade humana, e que a homossexualidade em qualquer situação é uma prática contrária a vontade de Deus.

O assunto é polêmico e racha ainda mais o cristianismo. Dias atrás os jornais destacavam o fato de clérigos anglicanos ingressarem na Igreja Católica, contrários a estas inovações em sua igreja. Penso que duas coisas aqui devem ser consideradas – e que estão neste manifesto do Conselho Luterano Internacional. Primeiro: “Declaramos nossa determinação de nos aproximarmos daqueles com inclinação homossexual, com o mais profundo amor cristão possível e cuidado pastoral, em qualquer situação em que eles estejam vivendo. Segundo: “Firmados no testemunho bíblico e mantendo o ensino cristão durante os últimos dois mil anos, continuamos crendo que a prática da homossexualidade – em toda e qualquer situação – viola a vontade do Deus Criador e deve ser reconhecida como pecado”.

Mas daí vem o pessoal da “anti-homofobia”, lei que tramita em Brasília e que tenta punir pessoa ou grupo que se manifestar contrário ao homossexualismo. Daí vêm de rolo compressor a mídia, as novelas, o Ministério da Saúde e do Ensino e toda esta conversa de “isto é preconceito”. E nestas horas igrejas e cristãos, na onda do politicamente correto e de “alianças com Judas”, são levados ao que o Senhor Jesus disse: quem comigo não ajunta espalha (Lucas 11.23). Pois este é o mal que também acontece na igreja, parecido com o que disse Lula: “Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.

Longe de nós qualquer tipo de intolerância religiosa. Bem pelo contrário, pois ninguém é melhor do que ninguém. Infidelidade conjugal, desonestidade, mentira, ódio, ganância etc. são iguais em condenação à prática da homossexualidade. Infelizmente no ardor do debate surgem os santinhos da igreja com presunção, hipocrisia e até ódio, um caminho inverso daquele que disse: “Eu vim chamar os pecadores e não os bons”. Afinal, todos precisam ser chamados.

Mas nestas horas é preciso não confundir alhos com bugalhos.

Marcos Schmidt
Pastor luterano
marsch@terra.com.br
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um Tesouro desenterrado na Reforma


Em 31 de Outubro de 1517, um tesouro estava por ser desenterrado. O Monge Agostiniano Martinho Lutero, deu início a um movimento na Igreja de então, denominado “Reforma”. Com o intuito de resgatar a dignidade do ser humano como filho de Deus, na sociedade em que vivia e especialmente na igreja que amava, denunciou e derrubou os muros da exploração e comércio que mais afastavam as pessoas do centro da Igreja Cristã, do que lhes aliviava a consciência. Neste dia Lutero resolveu levar o assunto ao debate, por isso fixou as 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, querendo com isso abrir os olhos das pessoas que ingenuamente eram ludibriadas com uma Teologia cheia de interesses e barata. Pressionou e desafiou a igreja a cumprir seu papel de apresentar o perdão como um presente de Deus, conquistado na cruz por nosso Senhor Jesus Cristo, e não baseada em obras, sacrifícios, indulgencias (Efésios 2.8,9) que cercavam a base do cristianismo (um problema que 5 séculos depois, volta a tona).


Ao traduzir a Bíblia para a língua do povo, uma revolução iniciava. Deus, que parecia aprisionado nos mosteiros e templos, passou a fazer parte do cotidiano das pessoas, sendo acessível por todos, em qualquer lugar.

A Revista Veja - Edição Especial do Milênio publicou uma pesquisa da Revista americana Life, a respeito dos personagens que mercaram o milênio (1001-2000), Guttenberg e Lutero, ambos do século XVI, ficaram entre os mais influentes: Guttenberg (1º) que se destacou pela impressão da Bíblia e Lutero (3º) o principal mentor da Reforma, que revolucionaria vários conceitos no que diz respeito a Teologia, igreja, educação de boa qualidade, ênfase na família e vida em sociedade (luta por impostos justos e administração pública honesta e transparente). A base desta pesquisa se ateve a quantas pessoas um determinado acontecimento afetou, e sua influência na atualidade. Depois de montanhas de livros consultadas, especialistas em várias áreas do conhecimento elaboraram a lista dos cem nomes.

A descoberta deste homem não pertence apenas aos luteranos, mas a todos os que têm certeza do perdão dos pecados unicamente pela obra de Cristo Jesus, pois Ele é a chave para o céu. A Santa Igreja Cristã é aquela formada por pessoas que “são como um edifício e estão construídos sobre o alicerce que os apóstolos e os profetas colocaram. E a pedra fundamental desse edifício é o próprio Cristo Jesus” (Efésios 2.20).

Márlon Hüther Antunes


Teólogo e Pastor da Igreja Luterana

Maceió – AL