sábado, 24 de outubro de 2009

Fé em tempos de globalização

“Parecemos tão livres e estamos tão encadeados...” (Robert Browning)

A liberdade de crença é uma das grandes conquistas da modernidade. Por longos mil anos, estivemos, no âmbito da cristandade, condenados a professar um único sistema de fé. Naquele 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses questionando alguns dogmas e práticas da Igreja de Roma. Seria o marco inicial da Reforma Protestante, graças à qual a cristandade do século 16 e seguintes se libertaria do jugo da crença única.

Desde então, têm-se multiplicado por todo o mundo as igrejas cristãs. Algo positivo. Mesmo preservados alguns dogmas fundamentais com os quais todas elas comungam, abriu-se o leque do pluralismo religioso, estimulando-se, teoricamente, a liberdade de pensamento. Mas, por históricas distorções sedimentadas na cristandade, fé, poder e dinheiro têm sido fatores difíceis de se dissociarem. Mesmo que, ao curso de toda a história das igrejas, espíritos de escol, fiéis à autêntica mensagem de Jesus de Nazaré, hajam combatido aquela espúria associação, o certo é que a proliferação das igrejas, notadamente nos últimos 50 anos, tem se orientado justamente por essa fórmula. É ela a própria garantia de seu êxito.

As bases a sustentar o modelo desse cristianismo de nosso século partem dos seguintes pressupostos: a fé é inquestionável, pois se funda na própria palavra de Deus; o poder emana diretamente da autoridade divina, a serviço da qual cada uma dessas igrejas afirma estar; o dinheiro empregado na “obra de Deus” retornará ao doador, multiplicado em bens de consumo, saúde, prosperidade e venturas no amor, benesses só concedidas aos crentes. Estes, por acréscimo, ainda obterão a salvação eterna.

O marketing empregado se afina com a economia de mercado, adotada por uma sociedade ainda movida por políticas excludentes, em que uns poucos são agraciados pelos bens da vida e muitos outros condenados à marginalidade. Enquanto esse modelo perdurar, as igrejas cultivadoras da teologia da prosperidade seguirão crescendo, à custa de vítimas incautas ou de espíritos atrasados, presos às malhas do egoísmo e da ignorância. A grande motivação para a adesão a esse sistema de fé é o apelo que se faz a um sonhado “upgrade” social e econômico.

Poderão se inscrever essas práticas nos modernos postulados da liberdade de crença? Com certeza não. Tampouco isso estaria nos planos do irrequieto monge que afixou suas teses na porta daquela igreja, há 492 anos. Trata-se, antes, de um verdadeiro estelionato da fé, astuciosamente engendrado, no seio da sociedade moderna e de suas garantias de liberdade de pensamento e crença. O modelo defrauda tanto os magnânimos projetos dos reformadores religiosos quanto os dos humanistas, livres-pensadores e laicos, que, no nascer da modernidade, ousaram contestar coisas como vendas de indulgências, autoritarismo e corrupção religiosa.

Milton R. Medran Moreira
Jornalista e advogado
ZERO HORA, 24 de outubro de 2009 N° 16134
Porto Alegre

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Raio-X que mostra tudo

Um aeroporto britânico testou na semana passada uma máquina que permite ver os passageiros sem roupa. É um raio-x de segurança para procurar armas ou explosivos escondidos no corpo de terroristas suicidas. O aparelho mostra qualquer material dentro ou fora do corpo, além do contorno em preto e branco das partes íntimas do passageiro. Mas os responsáveis explicam que as imagens serão vistas apenas por um funcionário, não podem ser arquivadas e serão destruídas logo após o exame.

Esta máquina, que vai deixar muita gente ruborizada, me fez lembrar um texto bíblico: “Pois a Palavra de Deus (...) vai até o lugar mais fundo da alma e do espírito, vai até o íntimo das pessoas e julga os desejos e pensamentos do coração delas. Não há nada que se possa esconder de Deus.” (Hebreus 4.12,13). É a checagem da lei divina que nos deixa “pelados” não do corpo, mas da alma. E que revela as bombas explosivas que todos carregam, descritas por Jesus (Marcos 7.21-23) e pelo apóstolo Paulo (Gálatas 5.19-21).

E na hora da vistoria não sobra um. “Não há ninguém que faça o bem” (Romanos 3.12). Mas sempre aparece um esperto que tenta um jeitinho, tipo o pretensioso jovem milionário com o seu “desde criança eu tenho obedecido a todos os mandamentos” (Marcos 10.20). Jesus não engoliu a santidade do rapaz e fez o último teste: - Bom, se você é santo igual a mim, então pode seguir o meu exemplo, eu que abandonei toda a minha riqueza no reino celestial. Larga todos os seus bens e me siga.

Isto foi um balde d’água fria. O santo de pau oco não conseguia obedecer nem o primeiro mandamento. Foi embora. E Jesus então disse uma coisa que deixa muita gente rica apavorada: – É mais difícil um rico entrar no Reino de Deus do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha. O problema, na verdade, não é o dinheiro e sim esta idéia de querer subornar o guarda e tentar passar por fora, sem os olhos deste raio-x. O que é impossível.

– Então, quem é que pode se salvar? A pergunta foi feita pelos espantadíssimos discípulos a Jesus. – Para os seres humanos isso não é possível; mas para Deus é. Pois para Deus tudo é possível (Marcos 10.27), respondeu o Salvador. Pois esta é a fantástica notícia quando a Bíblia mostra o jeito de escapar: se vestir com as qualidades de Cristo (Gálatas 3.27). Jesus é a roupa que esconde as bombas explosivas da natureza humana e o meio para desativá-las. Foi ele mesmo quem disse: Eu sou o check-in do aeroporto para o céu (João 10.9).

Marcos Schmidt
Pastor luterano
marsch@terra.com.br
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dose letal

É possível vencer a morte? Romell Broom, acusado de estupro e assassinato nos Estados Unidos, virou notícia após vencer a morte 18 vezes. Condenado a morrer por injeção letal, ele sobreviveu após 18 tentativas.

O que se passa na cabeça de alguém como Broom, no corredor da morte? Como encarar a morte?
A morte assusta, porque não fomos criados por Deus para morrer. Mas inevitavelmente, ela está próxima de todos. Alguns têm tempo para se preparar, assim como Broom esperava, e deve ter tido suas horas mais longas, antes da tentativa de execução; outros certamente não terão nem tempo de pensar na sua hora, serão surpreendidos, seja por acidente, tiro, ataque cardíaco ou algo parecido. Por isso é assunto a ser pensado.

Mesmo alegando inocência, como Broom alegou, todos são culpados e têm uma dose letal que já corre em suas veias: o pecado. E de acordo com a palavra de Deus, uma única dose basta para matar qualquer ser humano, “Porque quem quebra um só mandamento da lei é culpado de quebrar todos” - Tiago 2.10; “O salário do pecado é a morte” – Romanos 6.23. O Teólogo Martinho Lutero ilustrou da seguinte maneira: “O pecado está em nós como a barba. Barbeamo-nos hoje, parecemos apresentáveis e nosso rosto está limpo, amanhã nossa barba cresce de novo e não pára de crescer enquanto permanecermos na terra. De modo semelhante o pecado não pode ser extirpado de nós, ele brotará em nós enquanto vivermos”.
Por isso a tarefa da Igreja, é preparar as pessoas para o mais temível momento, não só para as crises da vida, pois “se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo”- 1 Coríntios 15.19.

Sim, há como escapar da morte e das conseqüências letais das doses de pecado. Há somente duas maneiras de morrer: com Cristo e sem Cristo. Jesus afirmou: — “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim nunca morrerá.” - João 11.25,26. Você acredita nisso?

Assim como Broom recebeu “milagrosamente” uma nova oportunidade de viver, até sua nova sentença, nós a temos e precisamos nos preparar. Escutem o que Deus diz: “Quando chegou o tempo de mostrar a minha bondade, eu atendi o seu pedido e o socorri quando chegou o dia da salvação. Escutem! Este é o tempo em que Deus mostra a sua bondade. Hoje é o dia de ser salvo” – 2 Coríntios 6.2. É confortador saber que é possível vencer a morte, com um milagre: em Cristo.

Márlon Hüther Antunes
Teólogo e Pastor da Igreja Luterana
Maceió – AL